O discurso político é o lugar do jogo de máscaras, e, por conta disso, jamais deve ser entendido apenas pelo que suas palavras dizem.
Pois estas escondem parte de seus objetivos, e fazem com que a versão, a retórica substitua o fato (é assim também no discurso jurídico).
Vejam, por exemplo, a fala da presidente Dilma Rousseff.
A presidente, na reunião de coordenação política, se mostrou bastante preocupada com possíveis confrontos no dia em que ocorrerão manifestações a favor ou contra o impeachment.
Esta é uma preocupação real, e os tais confrontos e violências devem ser evitados. Evitados por todos, governantes e a população.
Acontece, porém, que os ditos confrontos foram estimulados pelo Senhor Lula da Silva, exatamente no instante em que este ex-presidente convocou para irem às ruas a militância petista, o MST e os sindicatos.
Irem às ruas para defender o próprio ex-presidente, logo após ele ter sido levado coercitivamente para depor em uma das dependências do aeroporto de Congonhas (SP). Acirrou-se, portanto, ainda mais a divisão do país.
Divisão entre quem são contra e os que são a favor do petista, do PT e do governo Dilma. Ora, o país – e por tabela a população – nunca deveria ser dividida desta forma ou deste modo.
Divisão, aliás, igualmente promovida pela própria agremiação petista. Isto com o propósito de desviar o foco das investigações que recaem sobre o Lula da Silva e sua família. Estratégia que se soma a outra, a de desqualificação da pessoa do juiz Sérgio Moro.
Estratégias também encapadas pela presidente que, a todo instante, ataca a condução coercitiva do Lula da Silva.
O estranho é que a presidente não teve este mesmo empenho e dedicação para sair em defesa dos demais investigados, vários dos quais igualmente conduzidos coercitivamente.
Já se registraram, até hoje, na Lava-Jato, 117 conduções coercitivas. E, no entanto, nenhum membro do governo ou jurista se manifestou contrário, nem para questionar os trabalhos até aqui realizados, a não serem – claro – os advogados de defesa e os próprios familiares dos investigados.
Por outro lado, cabe acrescentar, em momento algum a pessoa do juiz Moro foi tão criticada, e teve seu trabalho tanto questionado. Só agora, vale repetir. Por que será? Cabe insistir nesta indagação.
Pois é a partir dela que se deve discutir o atual quadro de questionamento e de contestação dos resultados até o momento alcançados pela Operação Lava-Jato.
Questionamento e contestação que acirram ainda mais a divisão do país. Esta situação preocupa muitíssimo.
Bem mais quando se sabe que na terça-feira (08/03), cerca de 30 manifestantes ligados ao PT invadiram a Câmara Municipal de Maringá, com gritarias e confusões, exatamente no instante em que a professora aposentada Odete Moro – mãe do juiz Sérgio Moro – era homenageada.
Quadro altamente grave. Pois registra e alimenta a intolerância.
A intolerância (não importa de qual lado venha) paralisa a liberdade, e a paralisação da liberdade sufoca a democracia e o Estado de direito.
É isso.
LOUREMBERGUE ALVES é professor universitário e analista político em Cuiabá. lou.alves@uol.com.br